O jogo do passado sábado deixou um certo sentimento dicotómico nos adeptos. Por um lado fica a recordação de uma fabulosa primeira parte, jogada a alta rotação, onde o FCPorto esmagou o Leixões. Por outro lado, a 2ª parte de gestão do resultado que se esperava deixou a espaços uma imagem desagradável de displicência da qual não ficam saudades. O que interessa contudo é que a missão foi cumprida e os 3 pontos foram conseguidos contra uma equipa que, na época passada, deixou um amargo de boca nos adeptos portistas. O Dragão está a crescer.
O jogo era aliciante devido a diversos factores. Por um lado tratava-se de um adversário que, na época passada e numa primeira volta fantástica, tinha ganho categoricamente no Dragão por 3-2. Por outro lado, 10 jogadores do FCPorto tinham estado ao serviço das suas selecções, alguns deles do outro lado do Mundo e poderiam apresentar o desgaste dos jogos e das viagens. A isto somava-se o regresso de Hulk e o ultrapassar da barreira dos 5 milhões de adeptos no Dragão. Razões mais que suficiente para gerar ansiedade nos adeptos.
A primeira parte foi memorável. Após um período de atrevimento leixonense, o FCPorto demorou 10 minutos a pegar no jogo e, a partir daí, a exibição foi semelhante a um rolo compressor, asfixiando o Leixões e remetendo-o à sua área. Aliás, os números relativos à posse de bola no final dos primeiros 45' minutos eram elucidativos: 73% para o FCPorto e 27% para o Leixões.
O homem do jogo foi sem dúvida Álvaro Pereira que fez da ala direita do Leixões a sua autoestrada particular, dinamitando autênticamente o seu flanco na melhor exibição desde que chegou ao Dragão, sendo decisivo em 3 dos 4 golos dos dragões. Por outro lado também Hulk surgiu com uma alma nova, jogando muito mais em prol do colectivo e apenas caindo no individualismo pontualmente na segunda parte. Os vários recados de Jesualdo parecem ter surtido efeito.
O primeiro golo é um hino ao jogo colectivo: um passe em profundidade para a esquerda por Bruno Alves, Hulk simula e deixa passar a bola para o espaço vazio onde aparece Álvaro Pereira, imparável, a ir à linha para cruzar atrasado para a entrada de rompante de Varela. Aliás, o avançado português voltou a mostrar serviço embora tenha ainda alguma dificuldade em ser objectivo quando conduz a bola, fruto certamente da ansiedade gerada pelo peso da nova camisola.
Os golos foram-se entretanto sucedendo com naturalidade: Pereira passa por Laranjeiro e é tocado na passada pelo joelho do defesa leixonense, o suficiente para o desequilibrar na corrida, resultando daí um penalty transformado com raiva por Hulk. Depois nova jogada de Pereira a ir à linha assistir Raul Meireles que desvia para grande defesa do guarda-redes adversário na qual a bola sobra para o 2º poste onde aparece Rolando a atirar para o 3º. Finalmente, o 4º golo teve a assinatura de Falcao, após jogada de insistência de Hulk sobre Benitez (já sabíamos que isto ia acabar assim, certo?). Este golo teve aliás o condão de revelar um facto inédito: Benitez conseguiu finalmente ser útil ao FCPorto.
Com 4-0 ao intervalo, os adeptos já sabiam o que os esperava para a 2ª parte e Jesualdo não defraudou: o FCPorto limitou-se a gerir o jogo, fazendo descansar Pereira, Raul Meireles e Varela, dando minutos a Tomás Costa, Valeri e Farías. Contudo, o FCPorto mais que calculista, chegou em determinados momentos a ser displicente para desespero das bancadas. Bruno Alves ligou o "complicador" e Helton decidiu voltar a mostrar o seu lado "criativo" protagonizando um lance no qual cedeu canto (era falta sobre o guarda-redes mas se este tivesse sido prático não teria acontecido) e daí resultou o golo do Leixões.
Segue-se agora o Chelsea, que também poupou os jogadores na jornada do fim-de-semana, na próxima terça-feira em Stamford Bridge. Aqui Jesualdo irá dar com certeza a titularidade a Mariano e Rodriguez, jogadores que não foram utilizados contra o Leixões. Por outro lado Jesualdo poderá armar um meio campo mais "rígido" com 4 elementos, formado por Rodriguez, Meireles, Fernando e Tomás Costa. Uma coisa é certa:terça-feira o FCPorto tem o jogo mais difícil da fase de grupos e o Chelsea é favorito.
Destaques positivos:
Álvaro Pereira: a melhor exibição de Dragão ao peito! Toda ala esquerda foi dele e consegui ser decisivo nos 3 primeiros golos do FCPorto. Não foi no entanto posto à prova defensivamente, aspecto onde tem mostrado algumas lacunas.
Hulk: regresso em grande com uma exibição em prol do colectivo. Foi fundamental na jogada de Álvaro Pereira que resultou no 1º golo, apontou o penalty para o 2º golo e ainda ganhou a Benitez (não é motivo para elogio), isolou-se e assistiu Falcao para o 4º golo resistindo à tentação de tentar ele próprio a sua sorte (aqui sim, motivo para elogio).
Raul Meireles: está a subir de rendimento e não acusou o cansaço da dupla jornada pela Selecção. Deu uma grande mobilidade e dinamismo ao meio campo do FCPorto e esteve perto de marcar em algumas ocasiões. Parece estar de volta à boa forma.
Varela: mais uma vez dinâmico, explosivo e a justificar em pleno a titularidade. Foi oportuno no 1º golo, apontado aliás com muita classe. Precisa no entanto de ultrapassar aquela ansiedade que o faz perder a objectividade na hora da decisão quando conduz lances de ataque.
Falcao: 4 jogos, 4 golos. Revela um instinto matador e é sintomático ver que foi um dos jogadores do FCPorto que mais correu em todo o jogo, sendo fundamental no desequilíbrio defensivo do adversário e abrindo brechas para os companheiros de equipa. A continuar assim, temos homem!
Jogo colectivo do FCPorto: Foi na primeira parte soberbo e empolgante. A melhor exibição da época. Porque é que, tendo este potencial e jogadores capazes de interpretar esta dinâmica, o FCPorto tem de continuar a privilegiar, na maior parte dos jogos, um jogo de expectativa e de adormecimento do adversário?
Destaques negativos:
Jogo (não colectivo) do FCPorto: Na segunda parte a exibição do FCPorto foi uma espécie de Mr Hyde da primeira chegando a ser displicente. Embora Valeri e Tomás Costa tenham entrado relativamente bem, os níveis de rendimento baixaram drasticamente e a equipa chegou a ser displicente, resultando daí o golo do Leixões. Assim não!
Helton: A um guarda-redes do FCPorto não basta fazer meia dúzia de defesas vistosas. É necessário manter a concentração e a objectividade ao longo de todo o jogo de forma a não comprometer e, talvez recordando o golo "estúpido" de Diogo Valente que sofreu no jogo contra o Leixões na época passada, Helton voltou a querer armar-se em artista de circo ficando a reclamar uma falta do adversário que poderia ter sido evitada se tivesse simplesmente jogado de forma prática. Na véspera de um jogo contra o Chelsea que traz outras recordações menos simpáticas de Helton, estas atitudes não abonam a favor da confiança.
Bruno Alves: Foi o líder da defesa durante quase todo o jogo até que... resolveu complicar. Falhas inadmissíveis, fruto de excesso de confiança e desconcentração não abonam a favor da imagem do capitão. A rever.