Ontem Portugal conseguiu um resultado a todos os títulos histórico ao vencer o poderoso conjunto centro-europeu do Liechtenstein por 2-1 pois, com isso, conseguiu pela primeira vez o apuramento para duas fases finais consecutivas do campeonato do Mundo.Não vi o jogo confesso, mas já tive oportunidade de ouvir uma série de comentários de treinadores de bancada que opinavam sobre um variado leque de questões técnico-tácticas respeitantes à Selecção de todos nós (sobretudo do Scolari), indo desde o escalamento da equipa, às substituições efectuadas, sem esquecer uma menção honrosa às agilidades felinas do guarda-redes titular da equipa portuguesa.
Para já, não me escandalizaria se Portugal não tivesse conseguido ganhar ao Liechtenstein, isto porque quando me apercebi de toda a envolvência que antecedeu este jogo, me veio à memória o jogo da final do Euro 2004. Portugal era o maior, a vitória era um dado adquirido e o adversário iria ser apenas um figurante num filme com um único protagonista. Resultado: convencidos de que irremediavelmente o maior valor da equipa nacional do Scolari iria vingar, os jogadores aburguesaram-se, o esforço deixou de ser necessário porque o guião já estava escrito. Na prática Portugal perdeu contra a maior "ratice" grega e ia escandalizando contra "a equipa que agora tem muitos jogadores jovens e experientes" (Madaíl dixit) do Lietchenstein.
Sobre a escolha de jogadores, já chegámos à conclusão de que, por mais experiências que Scolari faça, os escolhidos serão sempre os mesmos e isso começa na própria baliza. Nesta altura dirão alguns "Olha este outra vez a dar-lhe com o Baía!" mas enganam-se. Com Scolari, é um dado adquirido que Baía não voltará à selecção, ponto final, não há mais discussão, embora eu tenha ficado surpreendido pela mudança de opinião de alguns ex-anti-Baía. Não é de modo algum razoável convocar jogadores que se encontram em profunda crise de confiança e que com isso podem, a dado instante, comprometer todo o esforço de uma equipa, tal como não é recomendável convocar jogadores que, sendo suplentes indiscutíveis nos seus clubes, não têm ritmo competitivo sequer de Superliga, quanto mais para competições de altíssimo nível como um campeonato do Mundo. É por isso que sou um acérrimo defensor da convocatória de outros guarda-redes de grande valor como Moreira ou (porque não?) dar uma hipótese a Jorge Baptista do Gil Vicente ou ao Bruno Vale?
Mais à frente, está o caso Postiga que, devido à profusão de golos falhados no F.C.P. foi relegado para suplente mas que igualmente tem sido uma presença assídua nos convocados da Selecção. Aqui parece-me que a escassez de pontas de lança de qualidade em Portugal contribui claramente para este caso, e daí não me choca. Contudo, acho que Pauleta, o tal que vai ficar para a história como o melhor marcador de golos pela selecção (excepto em fases finais de campeonatos) não tem valor para titular. Neste momento, Nuno Gomes é claramente o melhor que temos na selecção e é ele que deveria ser titular.
Outro factor que me preocupa é o degradar progressivo das exibições da selecção. Começa-se sempre com o mesmo esquema mas se a coisa não resulta e é necessário alterar algo, apenas assistimos a mais do mesmo: substituições do tipo "troca por troca". Temos um seleccionador que nem em casa contra o Liechtenstein gosta de arriscar e isso aflige-me já que não são selecções deste "calibre" as que vamos encontrar na Alemanha no próximo ano.
De facto, no Euro 2004 as coisas até correram muito bem e poderiam ter corrido melhor se a Grécia não se tivesse apurado para a fase final. Recordemos a equipa base: Ricardo; Miguel (ou Paulo Ferreira), Andrade, Carvalho e Valente; Costinha, Deco e Maniche; Ronaldo, Figo e Pauleta (ou Nuno Gomes). Esta equipa mostrou ao Mundo um estilo de jogo impressionante alicerçado numa defesa sólida e num meio campo dinâmico e pressionante, algo que valeu inclusive a Scolari, no final da competição e na atribuição dos prémios da competição, o prémio para a utilização mais inovadora do meio campo (ou algo parecido).
Analisemos a equipa agora por clubes: Sporting; SLB (ou FCP), Depor, FCP e FCP; FCP, FCP e FCP; Man Utd, Real Madrid e PSG (ou SLB). Significa isto que o meio campo era o meio campo do F.C.Porto que havia dominado a Europa nos dois últimos anos, tendo vencido inclusive uma Taça UEFA e uma Champions. As rotinas estavam enraízadas pelos jogadores que jogavam quase de olhos fechados. Esta equipa era, passe o exagero, a equipa campeã da europa de clubes desse ano e tinha indiscutivelmente o dedo de José Mourinho. Como o próprio disse com um sorriso mal disfarçado a certa altura do Euro 2004, "haviam ali uns mecanismos que lhe eram muito familiares". Entretanto os jogadores dispersaram-se e com isso parece-me que a equipa perdeu identidade, tendo sido necessário "reabilitar" Luís Figo que, a espaços, ainda consegue alguns pormenores interessantes que fazem a diferença.
Por tudo isto, só posso estar muito pessimista em relação ao futuro mas também e muito sinceramente digo que oxalá esteja enganado.
Um último comentário sobre o "apoio" a Ricardo: apesar de não concordar com a sua chamada à selecção neste momento, tendo em conta toda a sua situação competitiva e emocional actual, ainda assim, a partir do momento em que é convocado e entra em campo, Ricardo é um jogador da selecção e tem de ser apoiado ou pelo menos, não pode ser vaiado. O coro de assobios que se ouvia cada vez que tocava na bola, só serviu para o intranquilizar ainda mais e também para intranquilizar o resto da equipa, ou seja, é perfeitamente escusado. No entanto acho que quem defende a sua convocatória poderá falar sobre isto melhor que eu.
foto tirada daqui



